- Enquanto essas
experiências eram executadas, surgiram
determinadas estruturas. Observei uma porção de
matéria sem forma específica adquirir padrões
finos e sutis - também encontrados na natureza
-, influenciada pelo som. E, quando Hans Jenny
usava outras substâncias ou sons diferentes, os
padrões também se modificavam - e isso era
relevante.
Se a matéria, sob influência sonora, consegue
produzir determinadas formas ou padrões, isso
comprova que o som é algo muitíssimo
importante. Assim, fiquei inspirada para começar
minhas próprias pesquisas. Li muita literatura
sobre esse assunto e cheguei à conclusão de que
em muitas tradições o som é considerado uma
força poderosa e universal.
- A
Criação através do Som
- Examinando todas as
minhas fontes de pesquisa detalhadamente,
descobri que entre povos e civilizações
distanciados fisicamente uns dos outros sobrevive
a mesma idéia: o mundo inteiro foi criado pelo
som - e esse processo continua em andamento. Em
outras palavras, a criação seria um
acontecimento
sonoro.
Esse conceito é encontrado tanto no Oriente
quanto no Ocidente. O universo vibra, e o ser
humano sempre soube que tudo tem sua identidade
por causa da regularidade rítmica do movimento
do universo, e é isso o que diferencia um ser do
outro e dá a cada coisa sua forma específica.
No Evangelho de São João, cap. 1.1, está
escrito: No princípio era o Verbo, e o
Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
E na tradição hindu encontramos palavras
semelhantes: não apenas o princípio do som, mas
também da linguagem.
Nessas tradições, o princípio não surgiu
apenas através da palavra e do som, mas também
nomeando-se as coisas - como na Bíblia, quando
Adão dá nome a tudo que o cerca. Ao receber um
nome, qualquer coisa adquire uma identidade
específica porque só tem aquele nome e nenhum
outro - ela, então, pode ser reconhecida.
É este o princípio da linguagem e do
pensamento.
Temos assim o ato de criar através da vibração
e da língua. Se quisermos tecnologizar o mundo,
precisamos da linguagem - e, desse modo, da
diferenciação; mas se quisermos situar-nos no
aqui e agora, precisamos desligá-la e deixar de
dar nome às coisas.
Olhando para uma árvore, por exemplo,
normalmente dizemos para nós mesmos: árvore.
Ligando desse modo a linguagem, ela nos domina e,
de repente, começamos a nos lembrar de todas as
coisas que não fizemos ainda e
precisamos fazer, e assim por diante - pondo-se a
mente a tagarelar interiormente ou a fazer velhas
(e novas) associações com a árvore. Nomeando
as coisas ficamos presos ao tempo; não podemos
dar nome a algo sem
localizá-lo no passado ou no futuro. Se
quisermos evitar isso - isto é, se não
pretendemos viver num determinado espaço de
tempo, mas apenas num contato íntimo com o ser
árvore-, não devemos chamá-la pelo
nome, que,
afinal, é apenas uma invenção da mente humana.
Porque, pensando em árvore, nos
distanciamos dela - o mesmo acontecendo com todas
as coisas que nos cercam.
Temos que aprender a desligar nossa ação
verbal, que nos acompanha desde o nascimento e
nos causa tanto prazer. Devemos saber usá-la
apenas quando quisermos. Exercícios sonoros de
ioga são desenvolvidos com essa intenção.
Eles rebentama atenção, dando-lhe
tanta atividade que esquecemos de pensar. Assim,
os exercícios criam um círculo fechado de
atenção: usando nossa voz e atentando para o
modo como ela soa, o dualismo da linguagem, a
separação entre nós e o mundo desaparece.
Observando que algo é diferente de nós e que
também diverge de outras coisas, criamos a
distinção e, assim, a língua. Em todas as
tradições se busca eliminar a distância entre
o eu e o outro, para poder formar uma unidade. O
som é um dos meios mais eficazes de se suprimir
essa separação.
- A
Descoberta de uma Tradição Viva
- A qualidade mágica
e curativa do som era bastante conhecida entre os
antigos - especialmente pelos egípcios, mas
também por gregos, chineses e hindus. Contudo,
eu queria saber em que tradições essa sabedoria
ainda permanecia viva, e, assim, comecei a
estudá-la. Descobri que os tibetanos conseguiram
conservar o significado verdadeiro do som e da
voz devido à situação especial de sua cultura,
o que fez com que ela permanecesse viva, sem
grandes alterações.
Antigamente, a cultura espiritual do Ocidente era
semelhante à do Tibete - quando eremitas,
vivendo em cavernas, realizavam milagres
espantosos. Mas essa parte de nossa cultura se
perdeu no Século dos Luzes, enquanto
no Tibete a tradição ainda se preserva bem viva
- talvez devido à sua localização geográfica
tão especial ou, quem sabe, por causa da
atmosfera incomum do Himalaia.
Durante muitos séculos uma ciência espiritual
altamente sofisticada foi desenvolvida pelos
tibetanos. Na língua desse povo existe uma
grande
quantidade de palavras que, de um modo ou de
outro, significam espírito, o qual
foi estudado por gerações seguidas.
Os tibetanos falam do homem de três maneiras: no
que tange ao corpo, à alma e à voz
localizados, respectivamente, na cabeça, na
garganta e no coração. Eles não associam o
espírito ao cérebro, como no Ocidente. Para
eles, a voz é a intermediária entre o reino
sutil (do espírito) e o físico (do corpo): ela
é considerada uma ponte que une o material e o
imaterial. O falar, a voz, o som e a respiração
sutilizada (ou prana) estão todos interligados.
Mas não são apenas os tibetanos que consideram
o som como uma ponte - esta idéia é bastante
difundida em todo o mundo. O som, por exemplo, é
freqüentemente o intermediário para se
transformar o espírito em matéria e vice-versa.
Em todas as civilizações o som sempre foi usado
como um meio para se trilhar o caminho da
transcendência, para transmutar a matéria
novamente em espírito.
- Podemos ver a
realização desse conceito de maneira literal
usando o som de um objeto para quebrá-lo.
Escutando, por exemplo, o tom de um copo de vinho
e cantando depois no mesmo tom, poderíamos
quebrá-lo apenas com a voz - quer dizer,
conseguiríamos arrebentar uma determinada forma
pelo som. Isso pode ser feito com o auxílio de
força física, mas também espiritualmente.
-
- Na tradição
tibetana do Dzogchen, o objetivo é relaxar num
estado de contemplação e viver nossa vida com
integridade, de tal modo que as implicações de
nossos atos fiquem evidentes na claridade de cada
momento, e que vivamos como um peixe nágua.
Quando fluímos nas ondas do Tao, não deixamos
nenhum rastro e levamos uma existência perfeita
que não cria distúrbios. Se, por qualquer
razão, não conseguimos fazer isto, talvez haja
algum bloqueio ou distúrbio na nossa
energia ou algum tipo de problema na nossa mente
que nos impede de fazê-lo. Neste caso, há
certas coisas que podemos fazer para facilitar o
processo.
-
- Existem muitos
tipos de práticas, e o som é freqüentemente
usado para produzir um estado de clareza e de
contemplação.
-
- Mantras
- Na Índia também a
voz é muito importante como meio de
transformação: tanto neste país como no Tibete
ela é mais usada em mantras, os sons sacrais
derivados de idiomas tão antigos que se
desconhece o significado de algumas palavras.
-
- Existem
determinados sons utilizados para curar doenças
ou problemas, e outros que nos levam a um estado
de iluminação ou vazio. Existem ainda mantras
que nos sintonizam com os mestres de nossa
própria corrente espiritual - usando esses sons,
entramos em contato com eles e partilhamos de sua
sabedoria, além de contatarmos todas as pessoas
que já se utilizaram daqueles sons.
-
- Os mantras são
usados em todas as partes do mundo. Entre os
sufis - os místicos do Islã - combinam-se
formas de canto mântrico com movimentos
rítmicos do corpo e com o ritmo da respiração
para levar a pessoa a um estado de êxtase
transcendental ou de bem-aventurança espiritual.
-
- Quase todas as
liturgias também são cantadas nas igrejas
cristãs. Durante as missas e cultos, quando
todos cantam juntos salmos, hinos, invocações e
preces, as pessoas entram num certo estado de
exaltação. Assim, todos entram em sintonia
juntos. Quando se passa da fala para o canto,
acontece algo muito interessante. Através do
canto, é possível a união do indivíduo com
todos. É por isso que todos os países têm um
hino nacional.
-
- A Base
Shamânica
- As grandes
religiões mundiais se impuseram às tradições
locais xamanistas, milhares de anos mais antigas
que elas. Muitas práticas sonoras de ioga já
existiam na Índia e no Tibete bem antes do
surgimento do budismo. Os exercícios de canto,
os movimentos rítmicos e a respiração
cadenciada são métodos antiqüíssimos
assimilados pelas novas religiões.
-
- Os dervixes
dançantes também aplicam esses métodos. Eles
dançam em espiral, rodopiando enquanto respiram,
e rezam ao som da flauta - que se parece muito
com a voz humana. Eles dizem que o corpo de
um dervixe é como o de uma flauta, soprado por
Deus.
-
- O Que Eu
Ensino
- Depois de estudar
várias tradições, resolvi começar a dar aulas
sobre o assunto. Descobri que os princípios do
uso do som eram semelhantes; julguei, então, ser
importante entender o que tinham em comum e
ensiná-los de modo a ajudar pessoas alienadas
das suas próprias tradições. Sabendo como
utilizar a voz, podemos aproveitar-nos de toda a
sabedoria dos nossos antepassados e redescobrir
esse instrumento maravilhoso que está sempre
conosco.
-
- Usamos a voz apenas
inconscientemente, mas, como em todas as
tradições, ela poderia servir para nossa
própria transformação. Se conseguíssemos
liberá-la, também libertaríamos o ser humano.
Ela é o nosso meio de expressão. É o meio pelo
qual podemos tornar-nos conscientes de nossa
respiração e, através dela, conseguir
comunicar-nos com o universo.
-
- Inspiramos o mundo
e nos expiramos nele, num intercâmbio constante
que quase sempre ocorre de maneira inconsciente.
Mas podemos modificar totalmente essa troca.
Ensino às pessoas várias técnicas de
respiração, porque isto é uma arte em si,
exigindo muita precisão. Cada técnica tem seus
propósitos, dependendo do estado a ser
alcançado, a experiência desejada ou aquela
parte de nós com a qual queremos comunicar-nos.
-
- No início, temos
de respirar normalmente. Além disso, tentamos
modificar nossa respiração para cantar, e
cantamos para desenvolver nossa respiração.
Depois, temos de fazer tudo ao mesmo tempo para
silenciar a nossa mente tagarela e alcançar o
estado natural do espírito. Se quisermos
eliminar os pensamentos, precisamos respirar com
muito mais lentidão.
-
- Em geral, as
pessoas respiram rápido e superficial demais,
acentuando a inspiração. Alta e concentrada,
uma respiração rápida é necessária em
técnicas de rebirthing, onde se usa
superventilação para revelar material
emocional. Mas, se quisermos ir além da
superfície emocional, além da atividade da
mente pensante, devemos respirar de modo muito
mais lento, acentuando a expiração. Podemos
aprofundar o padrão da respiração de várias
maneiras, modificando-o, assim, totalmente.
-
- Durante a
respiração deixo as pessoas ouvirem: não é
importante apenas produzir som, mas também é
essencial escutá-lo. Porque, desse modo,
fechamos o círculo da atenção, excluindo o
eterno diálogo interior. Ensino as pessoas a
criar o som e ouvi-lo ao mesmo tempo. Depois,
mostro-lhes como utilizá-lo para se libertar do
padrão de ansiedade, alimentado pelas
experiências sensoriais.
-
- Cada percepção
coloca em movimento o processo de denominar
(linguagem e pensamento) e, assim, a comparação
no tempo do futuro e do passado. Desse modo,
somos desligados imediatamente do presente pelo
medo, a tristeza e o sofrimento. Esses fortes
padrões negativos atacam primeiro nossa emoção
e energia, causando depois mudanças tão
drásticas nas partes mais frágeis do corpo que
estas adoecem.
-
- Se usarmos o som
para trabalhar sobre o campo morfogenético de
uma pessoa - isto é, o modelo ressonante,
potencial do próprio estado de saúde daquele
indivíduo -, podemos conservá-la saudável. Em
inglês, sound (som) também significa são. Eu
tento afinar o veículo que é o homem -
conservar alguém afinado é ajudá-lo a
preservar sua saúde.
-
- É possível
descobrir o próprio som. Cada um de nós tem seu
som único, específico, e nos workshops
demonstro como desenvolvê-lo e deixar todo o seu
ser ressoar com ele. Nesse caso, sua voz tem de
ser mais grave e muito mais rica, pois assim
você vibra junto com ela quando canta. A alma do
som pode revelar-se quando você se entrega ao
seu próprio som, num canto harmônico. Este
último método tem uma origem xamanista. Ele
revela o núcleo do som em notas individuais, que
soam juntas acima do tom em que se canta. É um
acontecimento mágico, não importa se realizado
sozinho ou com um grupo de pessoas. O indivíduo
se sente como se estivesse evocando seres
angelicais. Ao mesmo tempo, como os movimentos da
língua estão diretamente ligados ao pensamento,
ao utilizar a língua para diferenciar e produzir
sons interpretáveis da própria voz - os quais,
anteriormente, eram inconscientes e
indiferenciados - estimulamos também
determinados nervos, muito pouco
usados.
-
- Meu
Objetivo Real
Meu objetivo não é modesto. Compreendo que nada
menos do que a transformação da humanidade é
necessária neste momento e farei tudo que puder
para tornar real essa possibilidade. Visto que a
voz é um instrumento de transformação que
carregamos conosco o tempo todo, é também um
dos meios mais poderosos e mais prontamente
disponíveis para essa transformação. Meu
método consiste em abrir os ouvidos das pessoas
para que possam ouvir sua própria voz. Então,
sua própria voz pode se tornar um meio de
transformação. Quando digo transformação,
quero dizer que podemos viver nossa vida em
harmonia com o meio ambiente e com as outras
pessoas, facilitando, assim, a iluminação dos
outros e a iluminação da vida sobre a terra.
-
- Uma
Experiência com Crianças
- Recentemente
ministrei um curso de verão a um grupo de
professores. Conversamos sobre como a reunião
nas suas escolas os embaraçava. Na Inglaterra,
as escolas têm todos os dias, durante a aula,
uma espécie de reunião, e existem regras
cristãs bastante rígidas a respeito das preces.
E isso os embaraçava especialmente porque esses
professores freqüentaram a escola durante um
período humanista de modernismo; então, eles
não sabiam o que fazer, pois eram obrigados a
participar das reuniões. Eu acreditava que devia
ser possível usar essas reuniões para que toda
a comunidade escolar se sintonizasse, utilizando
para isso o som, mas não do modo cristão
tradicional. Falei com várias pessoas durante
aquele curso de verão e elas pensavam que,
talvez, fosse possível para determinados grupos,
com crianças mais velhas. Logo esqueci tudo a
respeito.
-
- Voltando a Londres,
encontrei na minha oficina seguinte
cinco professores. Parece que algo que não ia
além de uma intenção de um momento para o
outro iria concretizar-se. Havia duas professoras
de música que lecionavam em algumas escolas no
Norte de Londres, um supervisor de ensino
musical, um professor que trabalhava com
crianças excepcionais e uma professora
especializada no método Montessori, todos na
mesma oficina. Fiquei tão surpresa
que começamos a falar sobre as possibilidades da
reunião escolar e eu lancei minha idéia.
Uma semana depois fui convidada a dar aula numa
escola básica no Norte de Londres - pela manhã,
para crianças de dez e, à tarde, para as de
sete anos. A diretora da escola ouvira algo sobre
minha idéia e se mostrara muito interessada. Os
dois professores das classes que iria ensinar e
várias outras pessoas estavam presentes. Por ser
a primeira vez que lecionava para crianças,
fiquei meio assustada com tantas testemunhas. Mas
me senti também muito excitada.
-
- As crianças
compreenderam imediatamente do que se tratava.
Elas fizeram perguntas bem precisas e brilhantes,
penetrando logo no x da questão.
Entenderam o que estava ocorrendo e foram
totalmente espontâneas. Pedi-lhes para
descreverem suas experiências enquanto escutavam
certos sons, tons, notas harmônicas, etc. O que
me contavam assemelhava-se mais a visões do que
a descrições. Eu esperava que elas se
imitassem, dizendo: Oh, sim, aconteceu
comigo também!, mas me enganei. Cada
experiência era totalmente diferente, mas se
originava da mesma fonte coletiva. Foram visões
cósmicas realíssimas as que as crianças
tiveram, e ficaram muito excitadas. Na segunda
parte da aula, elas podiam pintar o que viram. Os
professores presentes estavam totalmente
estupefatos - nunca tinham visto as crianças
tão espontâneas. Algumas que não abriam a boca
agora falavam sem parar, descrevendo suas
experiências. E, quando começaram a pintar, foi
simplesmente incrível. No passado também me
dedicara à pintura e fiquei comovida vendo as
obras dessas crianças. Da escuridão pularam
cores brilhantes do arco-íris, apareceram ondas
claras, e listras com bolas coloridas e
iluminadas boiavam no espaço. Pinturas
simplesmente extraordinárias, e as crianças
continuavam tão eufóricas que não conseguiam
parar, começando a escrever poemas sobre suas
experiências.
-
- Os pais, mais
tarde, também contaram coisas surpreendentes. As
crianças tinham chegado em casa completamente
entusiasmadas com o que lhes acontecera. Se
pudéssemos dar às crianças, desde muito
pequenas, essas experiências, talvez fosse
realmente possível transformar nossa sociedade.
Manter uma pessoa em sintonia é mantê-la
saudável
O que mais me interessa é o poder de cura e de
transformação do som
O som no corpo do iogue
O som é uma das técnicas mais eficazes de ir
além da separação
-
-
-
- "If
you can liberate the voice
- you can
liberate a human being"
-
- Copyright
Jill Purce 1985
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